Mostra de cinema exibe curtas para moradores de rua em Brasília



Quando o teto sobre a cabeça são as estrelas, entrar em uma sala de cinema pode parecer um sonho. Para quem falta comida, água e colchão, o acesso às artes pode estar quase tão distante quanto a Lua. Pensando nisso, um cineasta do Distrito Federal criou uma mostra exclusiva para dar uma volta com moradores de rua no universo do cinema.
O “Cine Rua”, como se tivesse vindo de outro planeta, desembarca nesta segunda-feira (26) no monumento que tem cara de disco voador: o Museu Nacional da República. A mostra vai exibir seis curtas-metragens gravados e produzidos na capital com temática livre e lúdica.

O evento começa às 13h com uma confraternização com cachorro-quente, pipoca, sucos e frutas. A sessão de cinema vai das 15h às 17h – o espaço tem capacidade para receber até cem pessoas.

Arte transformadora

O "Cine Rua" surgiu da convicção de que a arte é potencialmente transformadora se usada como instrumento de informação, pensamento e crítica.
Para o cineasta Januário Jr., que idealizou o projeto com a parceria da Revista Traços, facilitar o acesso à cultura é uma forma de encurtar o abismo da desigualdade social e de abrir caminho para a libertação.
“Achar que morador de rua não precisa de cinema é uma visão muito reducionista. Chega a ser um preconceito, porque ele se liberta com a cultura.”

 Um exemplo disso vai estar no telão, no filme “Meu amigo Nietzsche”, de Fáuston da Silva, finalizado em 2013. O curta conta a história de um menino que acha um livro no Lixão da Estrutural – hoje desativado – e, por meio do que lê, começa a fazer uma revolução na escola onde estuda. O filme ganhou cerca de cem prêmios em festivais do mundo todo.
Para além do caráter emancipador, o “Cine Rua” tem a intenção singela de provocar boas sensações, ainda que por um curto período de tempo. “É proporcionar a eles um estado de epifania e dizer que estamos juntos nessa", disse Januário, que é diretor e roteirista.
Na mostra, serão exibidos outros quatro filmes: “Brasília (título provisório)”, de João P. Procópio, que faz uma excursão arqueológica pelas ruínas da construção da capital; “Crônicas de uma cidade inventada”, de Luísa Caetano, que reúne histórias cotidianas contadas por seis habitantes; e “O Homem que não cabia em Brasília”, de Gustavo Menezes, protagonizado por um morador de rua
O último será “Ursortudo”, curta-metragem de Januário finalizado no ano passado. O filme ganhou três prêmios na Mostra Brasília do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro: o de melhor curta pelo juri oficial, o de melhor roteiro e de melhor ator (Elder de Paula).

Cultura da periferia

A cerca de 20 quilômetros do Cine Brasília – a casa de um dos mais importantes festivais do país, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro – a região administrativa do Paranoá assume posição de protagonismo no cinema independente da cidade
Entre os dias 23 e 29 de abril, ocorre a 2ª edição do Festival de Curtas do Paranoá. A mostra vai exibir curtas-metragens de todo o Brasil com até 25 minutos nos gêneros ficção, documentário, animação ou experimental. Os vencedores nas categorias competitivas vão receber prêmio em troféu e dinheiro.
Até deste domingo (25), o festival tinha recebido 428 inscrições de todo o país. Destas 47% são produções com presença feminina no roteiro, direção, produção ou fotografia. O evento reserva 25% das vagas para filmes com esta composição de equipe

Esta é outra iniciativa de Januário Jr., que vive na região desde que chegou a Brasília, em 2003. Nascido em Lagoa Nova, interior do Rio Grande do Norte, o diretor e roteirista encontrou no cinema uma forma de dar visibilidade à periferia e às temáticas tradicionalmente rejeitadas pelo cinema comercial.
O plano de inserir o Paranoá no cenário cinematográfico da capital do país começou com o primeiro filme, "A vida tem dessas coisas". A maior parte das cenas foi gravada no Setor de Oficinas da região e contou com a parceria de moradores como figurantes e para compor a equipe técnica.
O segundo, "Ursortudo", deu ainda mais destaque ao Paranoá com premiações no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro​​.

FONTE:G1 MUNDO

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