Fuga do altar, ditadura e ativismo: conheça a 'trajetória libertina' de Dona Mercês




A senhora de 66 anos que ficou conhecida no carnaval de Brasília por usar camisetas bem humoradas é mais que um exemplo de quem sabe levar a vida com doçura. Mercês Parente tem a trajetória libertina que poucas mulheres com a idade dela traçaram. No Dia Internacional da Mulher,  mostra alguns detalhes da ousadia e da alegria de Mercês.
Antes de se tornar a “rainha do carnaval”, ela já era dona da própria vida aos 15 anos – quando desfez um noivado e partiu a aventurar-se pelo interior do Brasil. Fugiu da casa de uma amiga onde passava férias para viajar pelo Nordeste, onde adentrou a luta das Ligas Camponesas.

Anos depois, entrou na Universidade de Brasília (UnB) e integrou o movimento de resistência à ditadura. Na academia, ela incorporou o ativismo político a ações voltadas à cultura popular, às quais se dedica até hoje.

Noivado aos 15
Até os 15 anos, a jovem Mercês se comportava como em um filme dos anos 1960: roupas impecáveis, cílios postiços, maquiagem e pernas cruzadas. De família tradicional nordestina, a menina seguia os rumos das mulheres que a antecederam. O noivado já completava um ano, e o casório tinha até data marcada

O futuro, no entanto, traçava outros planos para a garota. No aniversário de 50 anos do pai, quando ela, a mãe e os quatro irmãos seguiam para um jantar no Hotel Nacional, Mercês insistiu em fazer uma parada rápida na Torre de TV. O pit-stop, acredita, mudou os rumos da vida dela para sempre.
"Quando estacionamos a nossa Kombi, no carro do lado estava ele [o noivo] aos beijos com uma mulher", contou aos risos. "A família inteira deu de cara. Hoje, damos gargalhada de lembrar.

Criança que ainda era, Mercês superou a primeira decepção amorosa com uma viagem de férias para o Nordeste. O passeio ampliou os limites do mundo que a menina enxergava até então. “Aí que foi a minha mudança de percepção de vida. Foi a primeira vez que enxerguei as relações de poder.”

Pequena mulher

A princípio, Mercês passaria o mês de janeiro na casa de praia de uma amiga em Aracaju, mas a viagem se esticou até março e adentrou os rincões de Pernambuco e da Paraíba. “Cheguei lá, e pense numa casa de gente milionária! Parecia um palácio. Tinha funcionário pra todo lado e os pais dela nunca estavam.”

"O que mais me incomodava é que o motorista era negro e me chamava de 'minha branca' e eu dizia 'me chame de Mercês, pelo amor de Deus, porque se não vou ter que te chamar de meu preto e eu não sei dizer isso'."
Foi com ele, o homem que a fez sentir o incômodo da profunda desigualdade econômica e racial brasileira, que Mercês tramou a fuga do casarão. Ela inventou que a mãe enviara um telegrama pedindo que voltasse a Brasília, mas pegou um ônibus para Salvador.
"Foi tão armado o 'crime' que eu calculei a hora que saía o avião pra Brasília e o ônibus pra Salvador. O motorista disse aos patrões que ele tinha um problema de família para resolver naquele horário e voltava depois. Eu fiquei na casa dele até a hora do ônibus.

Durante a viagem, a menina conheceu um militante de 22 anos do Partido Comunista que faria uma espécie de caravana pelo interior do Nordeste para apoiar a luta das Ligas Camponesas. “Ele começou a me falar de justiça social, a me dar livros pra ler. Ficamos irmãos.”
Pegar um bronze na capital baiana acabou ficando para depois. Com o amigo, Mercês conheceu cidades que nunca ouvira o nome e viu de perto "a injustiça social, a perversidade do capital, da exploração, o que é terra improdutiva e as pessoas precisando plantar".
Para bancar a investida, a menina vendeu os apetrechos que já não lhe serviam mais: maquiagens, cílios postiços, chapéus e lingeries que havia ganhado para o casamento cancelado. "Vendi a tralha todinha!"
A mãe de Mercês sabia que ela estava viva e, para a menina, isso bastava naquele momento. “Eu ia pra um posto telefônico e dizia o nome da cidade, falava que estava tudo bem, com amigos. Depois fingia que a ligação estava ruim e desligava, para fingir que tinha caído”, contou, aos risos

FONTE:G1 MUNDO

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