'Temos de sair do cheque especial da água', diz especialista



Você fecha a torneira para escovar os dentes? Toma banhos mais curtos do que estava acostumado há 10 anos? Evita lavar o carro com tanta frequência? Parabéns. Chegou a hora de dar um passo adiante para ajudar a economizar água.
"Ninguém sozinho vai resolver uma questão tão complexa como a da água. Temos de trabalhar em plataformas coletivas", alerta o gerente nacional de água da organização não governamental The Nature Conservancy (TNC), Samuel Barrêto, em entrevista 
Na conversa, ele fala sobre a tradicional ocupação irregular do solo no Distrito Federal, afirma que o Brasil já está "nos juros do cartão de crédito" da água e precisa tomar medidas de longo prazo para "manter a questão discutida de forma permanente".
Barrêto é uma das principais autoridades do Brasil a respeito do assunto. Biólogo formado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) com MBA em Sustentabilidade pela Universidade de São Paulo (USP), o especialista coordenou por 10 anos o programa Água para a Vida da WWF e participou da elaboração do primeiro Plano Nacional de Recursos Hídricos.
O gerente nacional da TNC estará em Brasília daqui a exatamente um mês, na abertura da oitava edição do Fórum Mundial da Água. Autoridades de mais de 100 países vão se reunir na capital para discutir sustentabilidade e inovação a respeito do principal tema das conversas do morador do DF nos últimos meses: água.

Samuel Barrêto: Uma ideia importante é a de levar a agenda da água não só para o especialista, mas para o cidadão comum. Temos que traduzir o que significam as coisas no dia a dia com a água. Isso passa pela revisão das nossas atitudes e do nosso comportamento. É a mesma coisa de um fumante. Hoje, é difícil ter alguém que não saiba do impacto da saúde que o cigarro traz.
"Da tomada de consciência para mudança de hábito, há um percurso. E, hoje, a nossa consciência ainda não se traduz em hábitos."
Não basta resolver em casa, é importante cobrar os demais para que façam a mesma coisa. O Brasil tem uma das leis mais modernas sobre água do mundo, que completou 21 anos, mas é preciso que essa lei seja bem implementada. Para isso, é preciso trazer esse debate para o centro das decisões, pois ele afeta toda a sociedade. Está na agricultura, na segurança alimentar, no desenvolvimento regional, no bem estar social, na geração de energia, no lazer.
Todo o nosso dia a dia é regido por água, mas nossa cultura ainda é muito perniciosa. Usamos um elemento tão essencial para a vida com bastante desperdício. É essa cultura que precisa ser cortada. É isso que o fórum pretende deixar como legado para a sociedade brasileira (leia mais sobre o lançamento do Fórum Mundial da Água).
Barrêto: O elemento água não merece atenção só agora, durante um momento em que se tem uma crise hídrica. É um tema que veio para ficar, é uma necessidade urgente que merece e precisa de uma atenção especial de toda a sociedade.
Não sei se é receita, mas uma questão fundamental é que a sociedade veja valor nesse tipo de discussão. Temos de quebrar aquela cultura de que todo recurso natural no Brasil existe em abundância. Ainda que o Brasil tenha a maior reserva hídrica do planeta, com quase 14% de toda a água disponível no mundo, ela está distribuída de maneira desigual.
  • Crise hídrica alerta para fim da 'cultura da abundância'
Essa escassez costuma gerar conflito. É o que aconteceu em São Paulo durante a crise hídrica, é o que está acontecendo no Distrito Federal e é o que o Nordeste enfrenta pelo sétimo ano. A sociedade precisa adotar um comportamento melhor, desde um hábito simples, como fechar a torneira ao escovar os dentes, até um papel mais cidadão, na cobrança de implementação de políticas mais modernas de utilização de água. Sem essa pressão, é difícil avançar.

FONTE:G1 MUNDO

Nenhum comentário:

Postar um comentário