Ser mãe na Colmeia: detenta grávida e com filha de 1 ano aguarda sentença há 4 meses



filha de Josiele dos Santos sofreu um desmame abrupto com menos de 2 anos de idade. Sem o colo da mãe há quase quatro meses, a criança precisou reconhecer na avó os laços maternos. Josiele foi levada para a penitenciária feminina do Distrito Federal (Colmeia) em 8 de novembro de 2017 e não conseguiu se despedir da menina. Na carceragem, recebeu a confirmação de que carregava em seu ventre um outro bebê.
Detida provisoriamente pelo crime de tráfico de drogas, a jovem, de 20 anos, aguarda a audiência de continuação prevista para ocorrer na próxima sexta-feira (2). Na audição, Ministério Público, testemunhas e defesa serão ouvidos e, após as alegações finais, a sentença será definida.
Nesta semana, ela soube por meio de uma colega da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que concedeu prisão domiciliar a presas gestantes sem condenação ou a mães de crianças com até 12 anos. Com a decisão do Supremo, cada tribunal terá 60 dias, após a publicação da decisão, para implementar a medida, que valerá também para mães que tiverem crianças com deficiência.
À família, Josiele contou que, agora, está esperançosa para sair e, finalmente, voltar a ver a filha e fazer o enxoval da que está por vir.
"A Josi já perdeu muito tempo sem ver o crescimento da filha. Nem chegou a ver a filha a começar a andar", disse Iraci dos Santos, mãe da jovem. Ela recebeu a reportagem do  em casa na última quinta-feira.
Oito gestantes além de Josiele estão detidas na Colmeia, e mais dez lactantes – em período de amamentação. Destas, oito estão presas preventivamente, à espera de julgamento. Elas ficam em alas separadas e exclusivas.

Por lei, todas as mulheres nessas condições – grávidas e com filhos de até 12 anos incompletos – têm direito de solicitar prisão domiciliar à Justiça, estejam sob regime fechado, semiaberto ou provisório. A medida garante a elas um período maior de cuidado e relacionamento com os filhos.
Quando a domiciliar não é concedida, os bebês podem ficar na Colmeia até os seis meses. Depois disso, eles são encaminhados a familiares que desejem assumir a criação. “Se a interna não tiver parentes, caso raro de acontecer, a Vara da Infância designa um abrigo", informou a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal

Prisão de Josilene

Iraci – que desde a prisão da filha tem se desdobrado para cuidar da criança, garantir ao lado do marido o sustento das nove pessoas que moram no local e ainda lutar pela liberdade de Josiele – afirmou que “precisou pedir ajuda a Deus para não entrar em depressão”. O benefício do Bolsa Família que recebia foi suspenso em outubro de 2017.
“Esta pequena aqui chorava o dia todo. Não dormia e ficou arredia. Têm sido dias difíceis e achei que perderia o emprego porque também não conseguia dormir.”
Asmática, Josiele precisa de um medicamento, chamado de Aerolin, para conseguir respirar. Desde o início deste ano, o presídio deixou de fornecer o remédio e a família passou a desembolsar, mensalmente, cerca de R$ 30 pelo fármaco.
Eles também tiveram de pagar R$ 80 para que a jovem pudesse fazer uma ecografia. Questionada, a Secretaria de Saúde disse que o medicamento está em falta na rede pública e que a compra do produto está em andamento, mas não se posicionou sobre o exame.
No relato de Iraci, Josiele foi detida com apenas R$ 7 no bolso. Não havia drogas com ela no momento da apreensão, mas diz que a filha convivia com pessoas “que seguiam caminhos errados”.
“Sei que a Josi foi presa por tráfico, mas a pegaram com nada. Levaram a sogra dela, que é traficante, mas a minha filha não tinha nada.”
Segundo Iraci, meses antes da internação, a casa de Josiele pegou fogo. No incêndio, ela só conseguiu resgatar a filha. Todos os bens materiais foram queimados. Para pagar o aluguel de uma quitinete e quitar as contas, começou a acompanhar a mãe no serviço.
“Tinha colocado ela para trabalhar comigo e, justamente, no dia em que não encontrou alguém para cuidar da criança, aconteceu isso. Se ela estava traficando foi por desespero. E, por mais que uma pessoa tenha errado, quem nunca errou? Só Deus para julgar.”
No processo da jovem, consta que “embora não tenha sido apreendida grande quantidade de drogas, as autuadas [Josilene e a sogra] já estavam sendo monitoradas há bastante tempo, eis que estariam realizando tráfico de drogas em suas residências”. No documento, no entanto, não há indicação sobre a quantia encontrada pela polícia

FONTE:G1 MUNDO

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