‘Perdemos a guerra de narrativa’, diz secretário de Cultura do DF sobre problemas no carnaval




A ideia de um carnaval candango demorou a “pegar”. As escolas de samba desfilam no Distrito Federal desde a inauguração da capital, como um costume trazido pela comitiva carioca, e a irreverência das marchinhas politizadas do Pacotão completa 40 anos em 2018. Mesmo assim, a festa só ganhou escala nos últimos cinco anos, atingindo público na casa dos milhões desde 2016.
Esse movimento, visto como “gourmetização” pela velha guarda, deixou vítimas pelo caminho. As escolas não desfilam desde 2015, e blocos tradicionais reclamam de negligência por parte do governo. Vedete da nova onda do carnaval de Brasília, o Babydoll de Nylon pôs a anágua de molho neste ano e terá de buscar um novo modelo para 2019.
Em todos esses movimentos, parece haver um único consenso: a disputa por poder, espaço e dinheiro com o Palácio do Buriti. “Estamos perdendo a guerra de narrativa”, afirmou o secretário de Cultura, Guilherme Reis, em entrevista ao G1.
No comando da pasta desde o início da gestão de Rodrigo Rollemberg (PSB), o ator e diretor aponta “meias verdades” nas críticas, mas reconhece falhas – na garantia de barracões para as escolas e na discussão da Lei do Silêncio, por exemplo – e diz estar “à disposição” para debater os temas. É taxativo em um único ponto: o carnaval de Brasília deve, sim, receber dinheiro público.
Guilherme Reis: A gente tem que levar o período em consideração. Em 2015, tivemos um ano dramático em termos de recurso para qualquer coisa. A crise perdurou, e só agora a gente conseguiu respirar um pouco. Esse período também coincidiu com uma mudança no formato do carnaval, não só em Brasília como no Brasil inteiro.

O que a gente vem fazendo é uma discussão interna, e também com a comunidade, sobre como atender a um carnaval que cresceu muito, saiu de 350 mil para 1,5 milhão de pessoas. Isso exige serviços públicos, e o governo vem trabalhando para oferecer essa logística. Eu sinto que a gente vem dominando essas necessidades.
A gente vem trabalhando, também, o modelo econômico. Tradicionalmente, o carnaval vem sendo bancado pelo Estado. Se fôssemos seguir nesse modelo, com esse aumento de público, o custo seria impagável. Neste ano, tivemos o edital de patrocínio pela primeira vez, foi interessante. Ainda é muito aquém do que a gente gostaria, e do que eu acredito que será.
Reis: Acho uma questão muito mal resolvida com a sociedade. Há uma tradição grande, sim, lá dos primeiros moradores do DF. Em 1962, eu morava na 707 [Sul] e já assistia aos desfiles na W3. O que vinha acontecendo era um custo crescente para botar as escolas na rua. Poucas têm sede própria, e só essas conseguem bancar atividades ao longo do ano.
Reis: Não conseguimos avançar. Isso exige várias áreas de governo. E não é só carnaval, existe o circuito junino, existem várias manifestações culturais que precisam de espaço. O que avançamos foi trazendo essa discussão para a Lei Orgânica da Cultura, e agora temos esse instrumento legal. Agora, ainda precisamos regulamentar a lei em 2018.
Qualquer novo bairro, qualquer regularização tem área reservada para equipamentos públicos. Aí, a discussão é se é escola, hospital, centro cultural. Na cultura, a ausência de Estado é gigantesca. Estávamos avançando, mas ainda falta muito.

Reis: Em relação ao financiamento, já temos instrumentos para a manifestação do interesse privado, e também a possibilidade de linhas de financiamento do FAC [Fundo de Apoio à Cultura], principalmente para as atividades ligadas diretamente ao samba.
Escola de samba não é feita para desfilar, é uma escola. O nome diz. Voltada para o samba, para atividades comunitárias.
Reis: Nós temos que ser provocados, o Estado tem que ser provocado, a legislação está à disposição de todos os grupos. As linhas de financiamento do FAC são disputadas, discutidas. O que a gente tem é um segmento que não se mobiliza, a não ser quando chega o carnaval. E não estou falando das escolas.

Reis: [O conflito] se acirrou, porque essa mesma conversa vem ano após ano. Eu lamento que muita confusão esteja sendo gerada pela má informação. Eu entendo que eles se sintam fora das possibilidades de financiamento direto. Nós saímos de uma lei de 2011 que autorizava o Estado a fazer a contratação artística de oito blocos e das escolas de samba.
De lá para cá, a realidade é outra. Se você pensar no uso democrático dos recursos públicos, não dá pra gente contemplar oito em detrimento dos outros, mesmo que eles sejam mais antigos. O governo tem que ter visão de política pública e isso pode, sim, contrariar interesses.
A gente precisa deixar claro e dizer pra todo mundo que vamos, sim, ajudar, que há recurso pro carnaval. Tem muita gente que ainda bota em jogo se é papel do Estado. Claro que é.

Reis: Se tem uma guerrinha que a gente está perdendo, é a da narrativa. E aí, eu lamento muito que a gente tenha permitido isso. Você vê, nas ruas, um problema grande no carnaval de Brasília? Eu não vejo. O papel do estado é esse, de garantir estrutura, logística, chamamento público.
Eu não quero tensionar em relação a isso, respeito integralmente o trabalho de todo mundo, mas estão vendendo um peixe errado em relação ao que aconteceu com o Babydoll. No ano passado, já havia um descontentamento em relação ao tamanho que o bloco assumiu, a falta de controle deles próprios com o tamanho.
Eu entendo, de repente a coisa cresce e você perde o controle. No teatro, a gente brinca que é o 'drama que todo mundo quer viver': o de administrar o sucesso.
O Babydoll precisa se reformular em termos de formato, havia até uma discussão sobre cercar, dar senhas. Mas o carnaval do DF fez uma escolha de ser público, sem cordas. Podíamos ter adotado o modelo de Salvador, com corda e abadá, mas não foi o que se escolheu.

Atribuir ao governo a responsabilidade pelo bloco não sair é meia verdade. O governo ter dificultado a captação de recursos também é meia verdade. O governo está propondo, de forma saudável, modelos públicos, que atendam ao interesse público. A gente espera que isso se resolva, porque o carnaval de Brasília sente falta do Babydoll.

Reis: No ano passado, a gente chegou nos R$ 44 milhões de apoio a mais de 4,5 mil projetos do FAC. É um recorde. A gente vem tocando as obras – com atraso, com tudo, mas estamos tocando. Temos problemas de financiamento, de recurso? Sempre teremos, mas estamos avançando.
É claro que há um jogo político, mas estamos fazendo escolhas. Eu poderia fazer uma ação eleitoreira e soltar muitos projetos do FAC, bater recorde de novo. Ou a gente podia saldar dívidas históricas, projetos de 2014 que ainda não foram pagos. Eu fiz essa escolha. Provavelmente, a gente vai chegar ao fim do ano sem deixar dívidas nossas, e zerando dívidas passadas.


Reis: Acho que uma boa parte disso é “do jogo”, mas outra parte, não. A gente permanece à disposição para melhorar o que se está fazendo. Há um grande, grande espaço para que a política pública de carnaval melhore, cada vez mais.
Não tenham dúvida de que estamos atentos às demandas, de que somos sensíveis às críticas. Entendo que grande parte dessas posições e posturas está contaminada pela discussão política. A equipe permanece à disposição

Reis: Eu lamento muito que a gente não tenha avançado, a Secretaria de Cultura trabalhou muito nessa discussão, mas não depende só da gente. O que o governo fez foi optar, lá atrás, por encaminhar a discussão, respeitando a bandeira do deputado Ricardo Vale (PT).
Essa questão está na Câmara Legislativa, eu adoraria ter visto ela caminhar. Não vi espaço, possibilidade ou interesse de fazer andar dentro da Câmara. Agora, está muito mais na mão dos deputados. Do ponto de vista do governo, a gente tem todo interesse de ver andar para frente essa questão. Não tem por que não andar.
A Lei do Silêncio é uma questão não resolvida. E uma questão que precisa ser resolvida.


FONTE:G1 MUNDO 

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