Adoção: maioria das crianças em abrigos no DF tem idade acima do pretendido pelos candidatos




Mais da metade das crianças que vivem em casas de acolhimento no Distrito Federal estão na faixa etária com o menor índice de aceitação pelas famílias que pretendem adotar. Atualmente, 63% dos meninos e meninas aptos à adoção têm 12 anos ou mais. Por outro lado, nenhuma das 523 famílias cadastradas na lista de espera até quarta-feira (31) havia manifestado desejo de ser pai ou mãe de uma criança com mais de 10 anos.
Os dados são da Vara da Infância e da Juventude (VIJ) de Brasília e revelam a dificuldade para modificar o perfil da adoção. As chamadas adoções tardias – de adolescentes e pré-adolescentes – correspondem, em média, a 1,5% do total.
No ano passado, 90% das famílias que efetivaram o processo no DF escolheram quem ainda não tinha completado 12 anos. De acordo com o supervisor de adoção da VIJ Walter Gomes, em 2018, o cenário se mantém.
"A partir desta idade torna-se extremamente difícil ser adotado. A maioria das famílias que topa sair do perfil mais desejado têm um limite, e esse limite é a idade de 9 anos."


Criança ideal

O perfil desejado como criança ideal corresponde à menor parcela das que estão aptas para a adoção nas casas de acolhimento do Brasil. São recém-nascidas (até 1 ano), brancas ou "morenas claras", saudáveis e sem irmãos.
Ao contrário, o que predomina entre os destituídos do poder familiar, ou seja, que não possuem mais vínculos com a família de origem, são pré-adolescentes (10 a 12 anos) e adolescentes (13 a 18 anos incompletos).
"Estes dois grupos formam hoje a maioria de disponibilizados em território nacional", diz Gomes. Ele explica que em Brasília não é diferente.

Atualmente, a Vara da Infância tem apenas duas crianças disponíveis na faixa etária mais procurada. Uma delas está sendo apresentada a uma família e a outra tem "graves problemas de saúde", diz o supervisor.
O número total, no entanto, é muito maior: são 114 crianças e jovens a espera de uma família. Mas a maior parte deles, 70%, têm entre 10 e 18 anos.

Adoção tardia

A psicóloga e presidente do Grupo de Apoio à Adoção Aconchego, Soraya Pereira, explica que idealizar o filho adotivo é um equívoco. "Acredita-se que terá mais controle [da criação] se puder cuidar desde o início, mas não se tem essa garantia"

Sentimento de rejeição

Uma vez que a criança completa 10 anos, cada aniversário faz diminuir as chances de adoção, explica o supervisor de adoção da Vara da Infância do DF, Walter Gomes.
"Temos adolescentes de 15 anos institucionalizados há dez."
Segundo Gomes, é muito comum que essas crianças cresçam nas casas de acolhimento. Mas ao completarem 18 anos elas precisam deixar o sistema, enquanto assistem às crianças mais novas serem acolhidas. Esses jovens acabam por desenvolver sentimentos de rejeição, diz ele.
Para Soraya, o tempo de espera faz com que os pré-adolescentes e adolescentes sintam-se cada vez mais inseguros. "Eles passam a acreditar que a culpa de não ter uma família é deles", afirma a presidente do Aconhego.
"Elas passam a acreditar que foram abandonadas porque são más ou se sentem responsáveis pelo abandono."

 Este quadro é produto de uma cultura seletiva de adoção que, segundo os profissionais, precisa ser desconstruída. A legislação que regulamenta o sistema no país permite que os interessados escolham o perfil da criança.
"Na medida em que os sistema de Justiça faculta a possibilidade de escolha das características, reforça essa cultura. Nós temos que evoluir", afirma Gomes. Para ele, é preciso que o princípio norteador do processo de adoção seja o amor incondicional.
"Modificar radicalmente esse 'perfil clássico', de maneira que a família se habilite sem impor exigências com relação ao perfil. Esse é o cenário ideal."

Qual o motivo das famílias?

Personalidade formada. Esta é a principal justificativa das famílias que optam pelo "perfil clássico" de crianças ou que definem o limite de idade até os 9 anos, segundo Walter Gomes. "Elas invocam a limitação de habilidades e capacidades para conduzir a criação de crianças com comportamentos constituídos."
"Eu diria que é um automatismo na cultura de adoção nacional."

 O medo, explica a presidente do Aconchego, também domina o imaginário dessas famílias. "A adoção é carregada de muitos preconceitos, como a origem socioeconômica, a possibilidade de a mãe biológica ser drogadita e a ideia de que a criança já vem com a personalidade formada."
Segundo ela, é imprescindível que os pretendentes à adoção – seja qual for o perfil de criança desejado – estejam seguros da decisão e preparados para o desafio.
"No caso das crianças mais velhas, os pais precisam estar confortáveis com o fato de não terem participado da vida do filho até aquele momento."

Grupos de irmãos

A maioria das crianças com 12 anos ou mais que foram adotadas tinham um irmão ou irmã mais novo no abrigo, segundo a Vara da Infância. Esta ligação familiar, quando não representa mais um empecilho, acaba facilitando a adoção de crianças mais velhas.

São as (poucas) famílias que desejam adotar mais de uma criança que acabam acolhendo os jovens de 10 a 18 anos. No ano passado, a Vara da Infância autorizou nove adoções de dois irmãos e quatro de três – destes, oito tinham mais de 10 anos.
No entanto, Soraya afirma que este tipo de adoção merece cuidado especial para que o acolhimento de uma criança com mais de 10 anos, cujo irmão corresponde ao perfil desejado, não seja uma obrigação. "Isso fica pesado pra criança, porque ela percebe que é satélite. O pretendente tem que estar muito bem preparado."

Cor da pele


A cor da pele é outro fator que determina as chances de adoção. No DF, o número de crianças negras que encontraram uma família nunca superou o de brancas e de "morenas claras" – classificação definida pela Vara da Infância.
Desde 2010, este índice só conseguiu ultrapassar uma vez o da adoção de jovens de pele "morena escura" – 7 crianças negras e 6 "morenas escuras" receberam um lar em 2014. O máximo de adoções com este perfil foi de 11, em 2016.
Em parte, a realidade se ampara na baixa quantidade de negros disponíveis para adoção. Por outro lado, o alto índice de brancos adotados justifica-se por preferência familiar. Isto porque a maioria das crianças em casas de acolhimento da capital são "morenas claras" e "morenas escuras".
Mesmo assim, o supervisor de adoção garante que a exigência das famílias com relação à cor da pele vem caindo "de maneira significativa"

FONTE:G1 MUNDO

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