Refugiado sírio abre barbearia no DF e oferece corte de cabelo 'degradê' com machado



Quatro anos separam o dia em que Ammar Kalsh fugiu da guerra na Síria – com o equivalente a apenas R$ 100 e a roupa do corpo – e o dia em que conseguiu abrir uma barbearia em Ceilândia, no Distrito Federal. A mudança, até então inimaginável, ganhou força depois de ele desenvolver uma técnica diferenciada de corte de cabelo, no estilo degradê, usando um machado.
A ideia surgiu depois que um amigo viu um vídeo na internet a respeito e o desafiou. O sírio abraçou a ideia e começou a testar com o próprio amigo.

A gravação foi publicada em redes sociais. Foram mais de 300 mil visualizações em poucos dias, e o jovem, atualmente com 25 anos, acabou virando "atração" na barbearia em que havia conseguido emprego pouco depois que chegou ao país.
O número de clientes aumentou exponencialmente, e Kalsh pôde então reformar uma loja na QNM 3. O espaço ganhou grafites de ídolos do sírio – o boxeador Muhammad Ali, o cantor Bob Marley, a atriz Marilyn Monroe e o físico Albert Einstein. Uma mesa de sinuca, um bar e os nomes de familiares nas paredes ajudam a compor a decoração.
A barbearia tem quatro cadeiras para atendimento imediato e um sofá para quem aguarda vaga. O corte de cabelo custa R$ 15. O espaço funciona de segunda a domingo, a partir das 8h. Também é oferecida limpeza de pele, por R$ 50.
Entre os objetivos dele está trazer o pai, Fathi, a mãe, Fathia, a irmã, Dana, e o irmão Yazan para o Brasil – atualmente eles moram em Berlim, na Alemanha. Aqui, ele já conta com os irmãos Amjad e Ahmad.

Fuga da guerra

Kalsh estava no segundo ano de direito e trabalhava como vendedor de roupas em Damasco, capital da Síria, quando se viu sem alternativas e decidiu fugir. "Depois de dois anos vivendo em guerra, eu saí fora", lembra o rapaz.
Entre as inquietações dele estavam a obrigatoriedade de servir o Exército que defendia Bashar al-Assad e a convivência com tragédias – em 2012, ele viu uma bomba explodir e matar três amigos que estavam a alguns metros distantes.
Ammar e a família se mudaram para a Jordânia – centenas de países haviam imposto restrições a imigrantes. A impossibilidade de trabalhar legalmente no país tornou insustentável a vida no local. O grupo então se dividiu: o jovem e um irmão vieram para o Brasil, e o restante da família foi para a Alemanha.

"Peguei avião. Passei por São Paulo", lembra. Na cidade, ele procurava por um amigo virtual. Sem sucesso, seguiu rumo ao DF. "M Norte, depois Samambaia, depois Ceilândia Sul [onde continua]."
O sírio procurou uma igreja que abrigava refugiados. Ele afirma que, naquele momento, tinha apenas um objetivo: aprender o português.
"Falei para pastora: 'faz um papel para mim que eu sou da Síria, que eu quero trabalhar, não quero salário, só quero aprender a língua'. Eu não pensava em ser barbeiro, não, só queria aprender a língua. Eu achava que voltaria a vender roupa, que foi o que fiz a vida inteira."

 O jovem levou o bilhete por comércios na região e foi recebido em um salão a cerca de 500 metros do local onde hoje trabalha. Ele foi aceito como faxineiro. Cuidadoso com a limpeza, ganhou o apreço dos colegas, que decidiram ajudá-lo.
"Eles falaram assim: 'Ammar, a gente gosta muito de você, vamos deixar você fazer um curso'. Pagaram, e eu aprendi como fazer corte".
O rapaz passou a se dedicar com afinco ao trabalho. Nos três anos posteriores, economizou o quanto pôde – foi necessário abrir mão de visitar os familiares ou mesmo de trazê-los ao Brasil.
Com o dinheiro guardado, o Kalsh comprou a mobília do salão. As paredes refletem as raízes sírias e o amor pelo atual país, cujas bandeiras foram pintadas nas paredes

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