Família monta exposição póstuma em tributo a artista vítima de câncer no DF

Uma ex-professora como curadora, a mãe como idealizadora e a ex-namorada como produtora. Foi em família que nasceu a exposição "Traço Suspenso", em homenagem ao quadrinista Mateus Gandara. O artista brasiliense morreu em 2015, aos 28 anos, vítima de um linfoma (câncer no sistema linfático, que atua como uma rede de defesa do corpo).
A mostra com 110 obras – a maioria delas formada por quadrinhos – narra, através do traço de Gandara, o talento e a criatividade do brasiliense – que o acompanharam até os últimos instantes da vida.
"Ele sempre desenhou. Sempre interessado pela pessoa humana. Seja em uma festa ou num velório lá estava ele com um caderno na mão para registrar todas as cenas cotidianas", emociona-se a mãe, Marlene Gandara.
"Quando o Mateus estava na UTI, com o peito aberto depois de operar, ele estava conversando... Dando dicas para meninos que queriam publicar uma revista de quadrinhos."


Último desejo

Marlene conta que a ideia de unir boa parte da obra de Gandara em uma exposição foi para atender um desejo feito pelo próprio filho, no fim de sua caminhada. "Ele queria mais dois anos [de vida] para continuar os projetos que tinha. O que infelizmente não pode acontecer", conta.

"Vaidade, ele não tinha. Queremos na verdade mostrar o trabalho dele para o maior número de pessoas possíveis, para elas conhecerem o talento do Mateus".
A vontade de impactar as pessoas também é compartilhada pela ex-namorada de Gandara, Maria Nobre. Fazendo "a parte burocrática da exposição", como ela mesmo descreve, Maria encontrou uma forma de homenagear e de relembrar os momentos, bons e difíceis, que teve com o jovem artista.

"Dá para ver a mudança química [que Mateus passou] nos desenhos, como ele respondia no tratamento. Isso é visível. Num momento de catarse, era uma forma de concretizar o que estava acontecendo", afirma.

Nudez e sexualidade

Em meio a uma centena de peças expostas, existirá também um canto reservado com desenhos ligados à nudez e à sexualidade. A escolha dessas obras – e da restrição de acesso para maiores de 16 anos – não tem a ver, diz a família, com as polêmicas recentes envolvendo a arte e o sexo, que agitaram as redes sociais nas últimas semanas.

Ao G1, a família disse temer, justamente, que houvesse uma distorção da exposição por conta das peças. Por isso, artes mais "explicitas" serão colocadas em um espaço diferente, com a presença de monitores.
"Independentemente do que está acontecendo, as obras já seriam colocadas dessa maneira. O que temos medo é de criar um discurso de ódio, onde de ódio não tem nada", conta a ex-namorada.
Para a mãe, toda a exposição é o "fechamento de um ciclo". Marlene Gandara diz que a mostra amplia a visibilidade do trabalho, que chegou a ser publicado em fanzines e páginas em redes sociais, durante a vida do filho.
"O desenho representou tudo para ele. Ele desenhou a sanidade no momento de loucura. Ele quis deixar um legado. E aqui está o legado dele".

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