Quem mentiu, Cunha ou Joesley?

Em sua extensa entrevista à revista Época, o empresário Joesley Batista não poupou ataques a políticos dos principais partidos. O presidente Michel Temer foi chamado de “chefe da organização criminosa mais perigosa do Brasil”. O ex-deputado Eduardo Cunha (foto) se referia a Temer como "seu superior hierárquico". O senador Aécio Neves era o número 2, “igual ao 1”. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o PT “institucionalizaram a corrupção”. A ex-presidente Dilma Rousseff "pediu R$ 30 milhões".

E por aí afora.

Apesar de todas as acusações contra Lula e o PT, Joesley declara, num pequeno trecho da entrevista que “nunca teve conversa não-republicana com o Lula”, que diz ter encontrado apenas duas vezes no período em que afirma ter abastecido os cofres do partido. Todas as propinas eram, segundo Joesley, negociadas com o ex-ministro Guido Mantega.

As reações à entrevista foram as previsíveis. Temer abriu processo contra Joesley por calúnia e, num vídeo gravado antes de viajar à Rússia e à Noruega, afirmou que “criminosos não sairão impunes”. O PT, Aécio e os demais acusados negaram as acusações. Sem se abalar, a Polícia Federal apresentou ao Supremo Tribunal Federal (STF) as primeiras conclusões do inquérito em que acusa Temer de corrupção passiva.

Um dos acusados, porém, trouxe ontem à público uma informação nova que põe em xeque as afirmações de Joesley sobre Lula. Preso no Complexo Médico-Penal de Pinhais, Cunha chama Joesley de “delinquente” e “perigoso marginal”  numa carta manuscrita, redigida na prisão. “Ele fala que só encontrou o ex-presidente Lula por duas vezes em 2006 e 2013. Mentira!”, escreve Cunha. E prossegue:

– Ele apenas se esqueceu que (sic) promoveu um encontro que durou horas, no dia 26 de março de 2016, Sábado de Aleluia, na sua residência (…), entre eu (sic), ele e Lula, a pedido do Lula, afim (sic) de discutir o processo de impeachment, ocorrido em 17 de abril, onde pude constatar a relação entre eles e os contantes encontros que eles mantinham.

De acordo com Cunha, tal encontro pode ser comprovado pelo testemunho dos agentes de segurança da Câmara que o acompanharam em São Paulo, assim como pela locadora do veículo usado para transportá-lo.

Eis, em meio a toda a balbúrdia que sucedeu a entrevista de Joesley, a única informação nova digna de nota. Afinal, Joesley mentiu a Época sobre seus encontros com Lula? Ou quem mentiu, mais uma vez, foi Eduardo Cunha, repetindo o comportamento adotado ao negar ter contas na Suíça?

Ambos têm razão para mentir. É verdade que Joesley não poupa o PT nem os petistas. Nem na entrevista, nem em sua delação. Mas o nome de Lula, quando vem à tona, aparece num tom menos belicoso que o dedicado ao grupo do PMDB a que pertencem Temer, Cunha, os ministros Moreira Franco e Eliseu Padilha, além do doleiro Lúcio Funaro. Interessa para Joesley – sobretudo, para seus negócios – manter uma ponte com Lula, candidato natural, desde que não condenado em segunda instância, do PT em 2018.

Embora tenham acusado Lula, nem Joesley nem os demais delatores produziram provas contra ele na mesma medida em que fizeram contra os ex-ministros Mantega e Antônio Palocci, contra Pimentel e outros petistas – além, obviamente, de contra Temer, Aécio e políticos de outros partidos. Tentar reduzir as provas do envolvimento de Lula na corrupção petista seria uma forma de manter a tal ponte.

Mas também interessa a Cunha mentir nesse caso. O PT é sua nêmese eterna. Um encontro dele com Lula em plena crise do impeachment de Dilma seria insólito – embora não impossível. Foi contra Dilma, mais que contra Lula, que Cunha mobilizou suas tropas na Câmara. Artífice do impeachment, depois caiu em desgraça ao insistir numa versão flagrantemente falsa para as denúncias contra ele feitas pela Procuradoria Geral da República (PGR).

As provas reunidas pelo procurador-geral Rodrigo Janot demonstraram a extensão do envolvimento de Cunha em vários esquemas de corrupção. Levaram o Supremo Tribunal Federal (STF), numa decisão inédita, a suspender seu mandato e a tirá-lo da Presidência da Câmara. Desde que foi preso, Cunha hesita entre firmar um acordo de delação, escrever um livro de memórias ou apenas prosseguir nas fabulações de sua mente paranoica – que, de tempos em tempos, dão azo a missivas em maiúsculas.

Joesley afirma que evitava a famigerada delação de Cunha com seus pagamentos – “virei refém de dois presidiários”, afirmou sobre Cunha e Funaro. Tenha ou não razão, o acordo da JBS com a PGR pôs Cunha diante de uma situção nova. Tudo o que almeja é vingança. Contra o PT, contra Temer, contra Joesley e contra aqueles que o levaram à queda. E não há melhor vingança do que um conluio às escondidas entre Lula e Joesley, que demonstre aquilo em que o povo quer acreditar. Cunha foi preciso e deu detalhes da reunião. Não será difícil aos investigadores verificar quem mentiu, ele ou Joesley.

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